Correções no triunfo

Tem gente que gosta, sente prazer, mas eu não. O faço quando percebo ser uma obrigação, uma necessidade. Ser o chato não é algo que eu queira ser. Em um momento de alegria, com sequência de dois triunfos sobre adversários tradicionais, após perder o clássico contra o maior rival, apontar problemas é complicado, todavia, imprescindível. O Bahia venceu Sport e Flamengo, contudo deu muitas brechas aos dois por deficiências técnicas e de ajustes na marcação. A segunda tem solução.

Inegavelmente, Gilson Kleina conseguiu encaixar um padrão de jogo com variações táticas. Nas últimas partidas, o Bahia varia sempre entre o 4.1.4.1, o 4.2.3.1 e um pouco menos o 4.4.2 com um quadrado no meio. No primeiro caso, Uellinton fica recuado, muito próximo aos zagueiros, com Diego Macedo bem aberto pela direita e Maxi/Rafinha pela esquerda. Marcos Aurélio/Emanuel (mais avançados e caindo mais pela direita) e Rafael Miranda (mais recuado e caindo pela esquerda) ficam mais por dentro (lá ele). Nas outras duas conjecturas, Miranda e Uellinton ficam mais próximos e muitas vezes Rafinha/Maxi caem pela direita e Diego tem mais liberdade de movimentação.

Tudo muito bonitinho, mas existe uma grave dificuldade. Quando Rafinha não joga, a marcação na recomposição se limita aos jogadores do sistema defensivo. Diego Macedo só faz a sombra. Emanuel dificilmente fecha a linha defensiva e não tem o menor cacoete defensivo. Maxi apenas uma vez por jogo acompanha o lateral ou volante que avança até o final. Depois fica só olhando. Essa situação de só observar sem encurtar, facilitou a vida de Luiz Gustavo no BaVi. Contra o Flamengo, a intermediária ficou quase sempre limpa para tentativas de chutes de fora da área. Por sorte, os pés flamenguistas não estavam certeiros. ‘

Outro grande problema defensivo é com os laterais. Guilherme Santos é estabanado, não tem um bote certeiro, se posiciona mal e inacreditavelmente marca a bola recuada na linha de fundo e não o cruzamento. Railan tem essa mesma deficiência. Não sei se é medo de tomar o drible, falta de noção ou sei lá o que, mas quase sempre o adversário tem muita facilidade de jogar a bola na área. Assim saiu o gol do Flamengo e outras situações perigosas. Mesmo com os zagueiros bem, complica. Ainda pela completa insegurança de Marcelo Lomba nesse tipo de lance.

São situações que precisam ser corrigidas, porém existe uma problemática: característica. Os jogadores utilizados na frente não têm como virtude a recomposição defensiva. Não se trata de marcação mordedora e simples encaixe de linhas, acompanhar o adversário até o fim da jogada. Por isso Rafinha não pode ser reserva. Mesmo com físico de sub-15, tem ótima noção de posicionamento e recomposição. E, ofensivamente, Maxi não tem tanta diferença para ele, principalmente quando inicia as partidas. Rafinha quando ataca pela direita, facilita muito as ultrapassagens de Railan.

Que situação, hein? Afirmar que Rafinha tem de ser titular é de doer o coração, mas o momento exige isso. Lembrando que estou falando em cima do que vem sendo utilizado por Kleina. Subir um pouquinho a marcação também ajudaria na redução dos espaços. Uellinton também não pode ficar tão colado nos zagueiros. Nas laterais, Pará tem de ser titular, contudo é preciso uma conversa dura com ele. É melhor que Guilherme Santos, mas tem exagerado em firulas e por vezes é displicente no posicionamento defensivo. Precisa colocar o pé no chão. Com Railan, tem de treinar o mano a mano na linha de fundo. É coisa da falta de experiência também, nos dois casos.

Dor de dente

Quem já teve dor de dente sabe que poucas coisas são mais desesperadoras. A pessoa não sabe o que fazer. Tem gente que se aperta, que chora, procura sentir outra dor para esquecer aquela, entre outras coisas pelo descontrole. Até conseguir ser atendido por um dentista, o sujeito entra em parafuso. Guardadas as devidas proporções entre a dor física e a psicológica, esse é o sentimento do torcedor tricolor ao assistir o “time” jogar.

É um negócio aterrorizante! Aquilo, com certeza, não é futebol! Os caras dão a impressão que se reuniram pela primeira vez para jogar. E ainda com disposição de quem acabou de comer uma feijoada. Não é que falte vontade, mas jogam amarrados. É desagradável assistir aos jogos do Bahia. Irritante a completa falta de recurso para trocar três passes objetivos. A ausência de qualidade técnica e tática é desesperadora. Onde buscar recursos nesse elenco?

No último texto falei das características necessárias para utilizar o meio de campo em duas linhas de quatro. Enquanto Fahel esteve fora do time, até que o esquema deu alguma liga, apesar dos pesares. Porém, com ele, além de quebrar o grande mérito do esquema de defender e atacar em bloco, está a cada dia mais fora do jogo. Recua demais e força a linha de quatro ficar mais baixa. Não inicia as jogadas (obrigação para a função), não marca e quase nunca se apresenta ofensivamente. Gilson Kleina sabe disso, mas o utiliza mesmo assim.

Para piorar, Rhayner, que, desde a volta da lesão na coluna, atrapalha muito mais do que ajuda, recua demais e deixa Kieza completamente isolado. Sem falar que, com a bola, abaixa a cabeça e quer driblar todo mundo. A inversão feita entre Rafinha e Emanuel em alguns jogos, obviamente, não funciona com Rhayner e Léo Gago. O time fica sem alternativas. Basta travar Pará e Diego Macedo que morreu: nada acontece além de chutão. Ainda perde a bola parada, sem Emanuel. As melhores peças precisam ser utilizadas. Chega desse negócio de quem tem mais nome. Querem mesmo morrer abraçado a isso?

Do jeito que vai o rebaixamento é certo. Alguma coisa precisa ser feita. A impressão que passa é de conformismo. Não se vê tentativa de sacudir o elenco, buscar reforços. Sei que não existe dinheiro nem para pagar os salários. Não há nenhuma solução para isso em curto prazo? Impossível esperar criatividade uma hora dessas, né? Beleza, entendo que é importante pagar a todo mundo, mas algo precisa ser feito. E a alternativa pode estar em casa.

Não estou aqui para dizer que são a salvação da pátria, mas por que não utilizar Railan, Feijão, Bruno Paulista e Jeam? Talvez a vontade deles contagie o resto do time. O algo mais com eles acontece. Nenhum dos quatro teve sequência esse ano. Bruno, por exemplo, foi utilizado apenas uma vez, foi muito bem e simplesmente nem foi mais relacionado. Hoje, incorporado ao profissional, fica só no futevôlei. Vai evoluir e ajudar como dessa forma? Depois perdem o jogador e culpam o acaso. Arranjem logo um dentista!

Entender características

Qualquer esquema tático bem treinado terá sempre mais prós do que contras, independente de esse ou aquele ser mais eficiente. Existem aqueles ditos “da moda”. Sempre surge um clube ou seleção dominante, que dita o estilo do momento. Alguns times conseguem armar o modismo de maneira competente, enquanto outros buscam o antídoto. E o que traz a eficiência?

A resposta é simples: qualidade técnica, características dos jogadores e treinamentos bem aplicados. Óbvio que existem questões mais empíricas, como relacionamento entre jogadores, comissão técnica e diretoria. E, claro, pensando em longo prazo, a organização e estrutura do clube (centro de treinamento equipado, disciplina, salários em dia, etc.). Quando a questão técnica não consegue ser o diferencial, os treinadores precisam saber tirar o máximo de jogadores limitados, de acordo com o estilo de cada um deles.

Isso parece não ser algo levado em conta por Gilson Kleina nesses dois primeiros jogos a frente do Bahia, contra Criciúma e Atlético Paranaense. Diante do Corinthians visivelmente ainda era o time de Charles. Sem mudar peças para encaixar o esquema, Kleina extinguiu o 4.4.2 com o meio de campo em losango, e passou a jogar com a mesma nomenclatura, mas com duas linhas de quatro. Gosto de ambos e o problema não é a mudança e sim a ter feito com jogadores sem características para tal.

Fahel e Rafael Miranda jogaram centralizados e um pouco mais recuados, fazendo uma barreira à frente da área, mas nenhum dos dois sobe para o ataque e nem têm a menor condição de ser armador mais recuado. Estão ali apenas para tentar destruir. E o verbo é esse mesmo. Até por que também não são eficientes nesse quesito. Sem falar o eterno posicionamento baixo da defesa. “Só” nessa instância já seria um indicativo de que montar duas linhas de quatro – com esses jogadores – não é o melhor caminho, porém tem referência mais clara.

Para esse esquema funcionar minimamente bem, algumas características são fundamentais para os meias que jogam abertos: velocidade tática para atacar e defender e certa habilidade para o drible. Isso, repito, minimamente. Como extremos, Kleina escalou contra o Atlético-PR o volante pé de chumbo Léo Gago pela esquerda, e o lento e pouco dinâmico Emanuel pela direita. Marcos Aurélio também foi utilizado assim ante o Criciúma. Nem preciso discorrer sobre esses três jogadores para vocês concordarem comigo: com eles, não dá!

Se Kleina quiser manter essa composição tática, existem opções – ruins tecnicamente, mas com característica para a função – no elenco para fazer com que o time funcione. Meus amigos Darino Sena e Ivan Marques já haviam sugerido há uns dias dobrar os laterais. E o treinador fez isso ao colocar Diego Macedo (em função mais condizente com o estilo dele de jogar) no lugar de Léo Gago. Com isso, Emanuel passou para esquerda e Diego conseguiu dar alguma saída pela direita. Era pouco e Kleina tentou dar a mesma dinâmica do outro lado com Rafinha. Pode rir, sacana!

Para mim, esse esquema não é a melhor opção. Não o usaria com esse elenco, mas preciso analisar em cima do que é apresentado. Acho que Guilherme Santos não funcionaria na segunda linha. O mérito dele, talvez o único, é arrancar em velocidade quando pega campo aberto. Mais a frente, ele não teria esse opção e colocar Pará por ali, é perder um ótimo lateral. Creio que funcionaria melhor com Rhayner na extrema esquerda.

Do outro lado, Diego Macedo ou William Barbio. Os extremos seriam, pelo menos em característica de jogo, mais fáceis de encaixar. Obviamente, o time ficaria acéfalo de raciocínio no meio de campo. Seria uma estratégia feita para contra-atacar com mais velocidade. Para mudar isso e qualificar mais o passe, a distribuição do jogo, teria de tirar um dos marcadores e colocar Emanuel (única opção no elenco) mais recuado e centralizado. Eu ainda colocaria Feijão ao lado dele. Marca mais, tem mais saúde e passe que Fahel e Rafael Miranda. Provou isso nas raras chances que teve esse ano.

No ataque, Marcos Aurélio, Maxi e Lincoln, quando se recuperar, disputariam posição para ser companheiro de Kieza. O escolhido dos três teria de se movimentar muito para dar opção aos homens de meio de campo e, também, estar sempre próximo do centroavante. Tudo isso é teoria e, pela qualidade dos jogadores, não esperem um time jogando por música, mas pelo menos são os mais tarimbados para esse esquema. Acredito que dificilmente o Bahia conseguirá ser pior do que foi contra Criciúma e Atlético-PR. Negócio horroroso! O fato é que o túnel está estreitando e a luz está ficando a cada jogo mais fraca…

Será o momento?

Confesso que tenho um sonho de um dia ver o Bahia revelar um treinador e um gestor de futebol. Gente da casa, que conheça a história e o ‘modus operandi’ do clube, o disse me disse de parte da imprensa e a bipolaridade da torcida. E que, agregado a isso, tenham conceitos e filosofia atualizados e em constante mutação, além de, principalmente no caso do gestor, ter conhecimento do (s) mercado (s). Não é algo simples. Essas pessoas não são fáceis de achar, mas elas existem.

Sobre o gestor, não tenho nenhum nome. Pelo menos que valha o risco de divulgação (risos). Já sobre o treinador, Charles me surpreendeu. Buscou jogadores que precisavam de chance e os colocou na deles, sem inventar. Foram os casos de Lucas Fonseca, Feijão (tem de ter sequência) e Maxi. Taticamente, principalmente contra o Corinthians, saiu dos cansativos 4.2.3.1 e 4.3.2.1. Chegou muito perto de um 4.4.2 com o meio em losango, com dupla de ataque. Os amigos Hugano e Tiago gostaram.

Em contrapartida, é preciso levar algumas coisas em consideração. Não gostava do trabalho de Charles no Sub-20. O achava sem convicção e sem trabalhar bem os garotos. Ia de um esquema a outro, de um jogo para outro, sem nenhum encaixe. Reconheço, porém, que desde abril não vejo jogos ou treinos. Para base, quatro meses é muito tempo. Bruno Paulista, lateral esquerdo engessado e sem graça, mostrou isso ao jogar com desenvoltura ontem no meio de campo.

Mesmo com esses méritos, acho que efetivar Charles seria queimar cartuxo com um cara que pode evoluir. Não o vejo preparado para assumir essa sequencia que vem por aí. Acho importante o ter na comissão técnica (principalmente pelo conhecimento da base) e ir preparando para ser o treinador, quem sabe, no início da temporada em 2016. Um trabalho passo a passo, planejado, com o trabalho do dia a dia abraçado a estudo e aperfeiçoamento teórico. É um ótimo caminho, que poderia virar prática corriqueira na formação de futuros treinadores para o Bahia.

“Ah, mas o time com ele melhorou muito e não perdeu para Palmeiras e Corinthians”. Uma verdade relativa. Naturalmente, com a saída de um treinador desgastado com o elenco e que não conseguia mais motivá-lo, os jogadores tendem a correr mais, a jogar com maior disposição e até prazer. Marquinhos Santos poucas vezes conseguiu tirar um algo mais dos comandados. Muito pelo contrário. Todos baixaram o rendimento sob o comando dele. Sem contar que o Bahia pegou um Palmeiras abaixo da crítica e um Corinthians completamente relaxado. E, apesar da ótima jogada no lance, “ganhou” o gol do triunfo.

É o momento de alguém com mais costas quentes para segurar a pressão. Que tenha pulso e saiba blindar o elenco. Derrotas vão acontecer. E o momento atual é complicadíssimo. O time só sai da zona do rebaixamento na próxima rodada com uma improvável combinação de resultados. Claro que vimos uma luz no fim do túnel com relação ao grupo, mas não há nada o que se comemorar. Talvez o ressurgimento da esperança na qualidade do elenco. E se perder para o Goiás? Charles terá suporte (diretoria, comissão, elenco, torcida e imprensa) e condições psicológicas de suportar a avalanche que viria? Vamos com calma para não correr o risco de se precipitar e ter de correr atrás com menos tempo ainda para se recuperar.

Lá e cá. Existe perspectiva?

A escolha de Dunga para ser o treinador da Seleção Brasileira, a princípio, me surpreendeu. Porém, com o passar dos dias e com uma análise mais ampla, as razões vão aparecendo. Os aloprados dirigentes da CBF por arrogância, desatualização e medo, não querem treinador estrangeiro. Nome mais cotado durante muito tempo, Tite, supostamente, é muito ligado a Andrés Sanchez, rival de Marin e Del Nero. Muricy Ramalho não é visto com bons olhos. Contrataram Gilmar Rinaldi (?), amigo de Dunga desde a base do Inter. Tinha mesmo outra opção?

O Bahia fez até aqui 33 jogos na temporada. Podemos dizer, com boa vontade, que em cinco, o time foi bem, conseguiu fluir esquema tático e sistema de jogo. Nos demais, ou deu raiva, sono, desespero ou todas as opções anteriores. Sei que já falei disso, mas não evolui. Foram dois jogos após a parada para a Copa do Mundo e o nível tático do time segue arrastado, travado, sem mobilidade, como se fosse um time de botão. As linhas são facilmente dominadas.

Respeito muito Dunga, mas não era o que a Seleção precisava. Nosso futebol é ultrapassado, não consegue se equiparar taticamente com praticamente ninguém no mundo. Isso não é exagero: é fato! Mesmo com superioridade técnica, financeira e estrutural, os clubes brasileiros, até quando vencem, são dominados por adversários do Peru, da Venezuela, da Colômbia, do Paraguai, etc. Não será Dunga que conseguirá isso. A não ser que, desde a saída do Internacional ano passado, ele tenha tomado um banho de humildade e outro de conhecimento.

Me incomoda também a maneira que Marquinhos Santos tenta se defender. Em coletiva recente, afirmou que todo mundo regulariza menos o Bahia. Foi no mínimo leviano. Kaká (São Paulo), Fernandinho (Grêmio), Marcinho, Aguiar e Beltrão (Vitória), são alguns dos vários exemplos de “demora” na regularização. E aqui não vai nenhuma defesa a diretoria e sim dos fatos. A janela tinha cinco dias aberta e a burocracia internacional é sempre mais complicada. Depende de fuso horário, tradutores, boa vontade e ainda outras circunstâncias incorrem, como no caso de Marcos Aurélio. Devido a atritos entre Internacional, investidores e clube coreano, outro contrato teve de ser redigido e assinado por todos. Isso demanda tempo.

Taticamente, Dunga costumava jogar com cautela, aproveitando o eficiente contra-ataque, baseado na velocidade de Kaká e Robinho e na eficiência de Luís Fabiano. Os laterais mais defendiam do que atacavam. Eram dois volantes fixos (Gilberto Silva e Felipe Melo) e um terceiro com mais liberdade aberto pela direita (Elano). Inegavelmente, era uma equipe mais compactada que a de Felipão, mas também não tinha muito repertório ofensivo. Muitas vezes não sabia o que fazer quando pegava um adversário fechado. Pelo trabalho no Inter, não me parece que Dunga tenha evoluído para suplantar isso, mas terá, se quiser, jogadores mais gabaritados para resolver.

Marquinhos tem se mostrado um sujeito extremamente tendencioso. Impressionante como nunca diz uma linha publicamente sobre os mais experientes. Contudo, quando se trata dos garotos da base, não há nenhuma cerimonia para colocar na fogueira. O exemplo recente foi o de Pará. Talvez o mais regular tricolor antes da parada para a Copa, foi sacado com argumentos sem coerência quando se olha o resto do time. E o substituto, Guilherme Santos, tem tido atuações bem abaixo das de Pará. Para quem veio com o currículo de trabalhar com a base… Nos últimos treinos, apenas Pará tem participado dos coletivos. Feijão, que teve uma amigdalite muito forte recentemente, faz tempo está afastado. Jeam entra faltando poucos minutos e depois é excluído. Isso é jogar patrimônio fora, rasgar dinheiro. Em março escrevi que Marquinhos poderia ser danoso ao clube mais do que “apenas” com rendimento ruim (ver artigo). E, pelo visto, eu estava certo.

Deu para perceber que não tenho expectativas positivas com Dunga e Marquinhos Santos. Procuro analisar o trabalho de maneira mais macro e não simplesmente em cima de resultados. Dunga até que teve, apesar de ter perdido as principais competições (Olimpíadas e Copa do Mundo). Já Marquinhos vem de oitos jogos sem vencer, mas ganhou o Baiano (Eu sei, é muito pouco). No entanto, rendimento e perspectiva os deixam praticamente fora da necessidade da Seleção e do Bahia. No caso do primeiro, a pressão será grande de todos os lados. Não sei se os chefes dele vão suportar. Já o segundo depende de resultados. Acho interessante esse pensamento de dar suporte à comissão técnica, mas é preciso ver além de números. O horizonte apresenta uma verticalização para baixo. Espero estar errado.

Escudo

Antes de entrar no tema, deixo claro que o mote não é Mano Menezes. Difícil dizer se a coletividade, o trabalho tático da Seleção, estaria em um estágio superior ao com Felipão. Repito: esse não é o ponto! José Maria Marin demitiu Mano no melhor momento dele. Tinha encaixado um esquema sem centroavante e conquistado um título simbólico. Parecia que dali para frente à coisa ia caminhar de forma mais promissora.

Mais quem é Mano Menezes? Carisma nenhum. Nenhuma força popular, histórico de aguentar pancada. Sem falar que ainda não era muito conhecido do público da Seleção. Era um alvo muito fácil de ser derrubado e a atenção para qualquer fracasso, recairia nos chefões da CBF. Aí que entra a dupla Felipão/Parreira. Os últimos campeões mundiais e com apelo na maioria dos torcedores. Estavam desempregados. Felipão chegou a um ponto de participar de mais campanhas publicitárias que Neymar. Era o escudo perfeito!

E o resultado da Copa do Mundo comprovou isso. Felipão deu entrevista coletiva quatro dias seguidos. Enquanto isso, os dois presidentes da CBF, José Maria Marin (atual) e Marco Polo Del Nero (eleito para assumir em 2015, em uma absurda eleição antecipada), até hoje não deram as caras. A comissão técnica já foi demitida, o que a meu ver era uma obrigação, já que taticamente o Brasil foi, talvez, o pior da Copa do Mundo. No entanto, o buraco (lá ele) é mais embaixo.

Um amigo, Bruno da Mata, falou algo interessante no twitter. “Se queremos derrubar o presidente, pra que enfatizar o nome do “ministro”?”. Indaguei com ele que uma coisa não inviabiliza a outra. Os dois devem sair. Como sabemos que Marin e Del Nero não vão largar o osso com facilidade, a rápida queda de Felipão ajuda a opinião pública a apontar as armas para os chefes. E agora eles estão sem escudo.

O momento todo converge para uma mudança radical na filosofia do futebol brasileiro. Mudar velhos costumes e a maneira sangue suga que a CBF trata os clubes. Uma entidade não pode ser milionária, enquanto os afiliados passam sufoco triste. Não existe um conceito de formação. Acham que vai ser sempre na mágica e os clubes que se virem! É igual aquele parente mala, que pega seu carro emprestado, gasta a gasolina, bate e ainda reclama de você. Se acham os donos do mundo. O futebol precisa ser tratado com seriedade e tudo passa pela queda dos gananciosos e odiosos dirigentes da CBF. Não foi uma pane!

O que falta?

Pelos jogadores que tem, inegavelmente, a Seleção Brasileira não conseguiu agradar na primeira fase. Apesar de eu achar o grupo subestimado (até Camarões, não fosse à falta de respeito dos jogadores, brigaria pela classificação), o time de Felipão ficou devendo e muito. Taticamente, o Brasil não tem rendido nem 40% do que pode. Por mérito individual de quem tem de resolver, a classificação veio. Com sustos, mas em primeiro lugar.

O Brasil comete um equivoco tático que parece encravado nos conceitos dos treinadores brasileiros. O time não consegue ser compacto. A linha defensiva é muito recuada e formada por apenas três jogadores: Thiago Silva, David Luiz e Luiz Gustavo (jogando demais!). O trio tem ido bem em todos os jogos, apesar de falhas aqui e ali, como a de Thiago no gol de Camarões. No terceiro dia da escolinha, se aprende que o zagueiro, caso não esteja marcando ninguém, tem de fechar a primeira trave no cruzamento. Tem de se eliminar a bola reta.

Os laterais avançam demais e não têm suporte defensivo para tal. Apenas Luiz Gustavo, extremamente sobrecarregado, consegue ajudar os dois, principalmente Marcelo. Paulinho tem sido peça nula na composição defensiva. Além de se posicionar mal, não antecipa, não faz coberturas, obriga Oscar a voltar além da medida e não articula o jogo. Com Fernadinho, o sistema de jogo teve um crescimento absurdo. Impressionante a diferença entre Fernandinho e Paulinho, em favor do primeiro. Luiz Gustavo finalmente terá um companheiro de fato e Oscar poderá ter mais tranquilidade para jogar.

Para o time não passar o sufoco que vem passando, quatro mudanças são necessárias. Duas técnicas e duas táticas. A primeira parece já ter sido feita, com Fernandinho no lugar de Paulinho. Aliás, tive até uma conversa sobre isso com meus amigos Darino Sena e Elton Serra. Ambos preferiam Fernandinho, enquanto eu, Hernanes. Os dois reservas, sem dúvida, fariam/fazem a função melhor do que Paulinho. E de forma alguma achava ruim que o escolhido fosse Fernandinho e não Hernanes. A minha escolha era exclusivamente pela característica do que por qualidade superior.

Penso que o time precisa de um jogador que cadencie o jogo, busque a bola atrás (lá ele) e organize o jogo com passes e lançamentos. Hernanes faz isso melhor que Fernandinho, entretanto o segundo também pode fazer isso e é superior na dinâmica de jogo, na marcação, velocidade e aproximação. Não há do que reclamar dessa escolha e sim comemorar. Creio que a tendência é um meio de campo, a partir dessa alteração, mais forte, sem tantos buracos e com uma recomposição melhor trabalhada.

As duas mudanças táticas necessárias são defensivas. Em vários momentos dos jogos, Luiz Gustavo vira um terceiro zagueiro. Jogando, inclusive, mais recuado que Thiago e David. Os três jogam muito e têm qualidade para sair jogando, além de serem rápidos. David Luiz também tem se mostrado um ótimo lançador, como bem lembrou Tostão em artigo publicado nesta terça-feira (24). Por isso, o posicionamento deles não pode ser tão recuado e distante do resto do time. Com a velocidade e qualidade técnica do trio, não há nenhuma necessidade de fazer a marcação e a saída de jogo tão recuados. Isso alonga demais o time e deixa a intermediária exposta, além de forçar lançamentos desnecessários.

Acho Daniel Alves e Marcelo melhores que Maicon e Maxwell, mas talvez os dois últimos encaixem melhor na maneira de o time jogar. Como essa opção é praticamente descartada, o posicionamento defensivo precisa melhorar. Daniel e Marcelo não podem fazer a primeira linha defensiva tão distante dos zagueiros. Isso facilita a triangulações em cima dos dois e deixa os zagueiros mais expostos. Com Fernandinho e a melhora do posicionamento dos zagueiros e dos laterais, o time se encorpa e fica difícil de ser batido.

A última modificação é do meio para frente. Especificamente na postura de um jogador. Gosto das inversões entre Neymar, Oscar e Hulk. Os três não ficam fixos na linha de três atrás do centroavante. Com as alterações no sistema defensivo, esse trabalho ficaria mais fácil de ser realizado e aumentaria a dificuldade em ser marcado. O problema ofensivo está na falta de mobilidade de Fred. Sei que por característica, é complicado para ele fazer isso, mas precisa se movimentar mais, aparecer para tabelas e não ficar tantas vezes em impedimento. Uma correção individual que faria o time evoluir coletivamente. Creio que com essas quatro mudanças ficaria difícil alguém evitar o hexa.